Equilíbrio em um pé só e olhos fechados revela sinais precoces da esclerose múltipla
Estudo mostra que um teste simples, gratuito e de menos de 30 segundos detecta déficits sensório-motores sutis que escapam às avaliações clínicas tradicionais

Imagem: Reprodução
Uma pessoa aparentemente saudável, diagnosticada com esclerose múltipla (EM) e com pouca ou nenhuma incapacidade visível, pode caminhar normalmente, realizar tarefas do dia a dia e apresentar resultados quase perfeitos nas escalas clínicas convencionais. Ainda assim, seu cérebro e seu sistema nervoso podem já estar enfrentando dificuldades para coordenar informações sensoriais e motoras. Agora, um estudo publicado nesta quarta-feira (17), na revista científica Scientific Reports, demonstra que um teste extremamente simples — permanecer apoiado em uma perna, de olhos fechados — pode revelar esses déficits ocultos de forma surpreendentemente eficaz.
A pesquisa foi conduzida por Kardelen Akar, Hussein Youssef, Furkan Akkoç e colaboradores, ligados à Koç University, à Kocaeli University e ao Koç University Research Center for Translational Medicine. O objetivo foi identificar uma ferramenta clínica sensível capaz de detectar sinais precoces de comprometimento neurológico em pacientes com esclerose múltipla que ainda apresentam baixos níveis de incapacidade.
Os pesquisadores analisaram 71 pacientes com esclerose múltipla e 45 indivíduos saudáveis. Entre eles, um grupo especial de 30 pacientes apresentava formas muito iniciais da doença, com escore de incapacidade EDSS igual ou inferior a 2, considerado um estágio de baixa deficiência clínica.
O resultado chamou atenção: apenas 19% dos pacientes com EM precoce conseguiram completar os 30 segundos do teste de apoio unipodal com olhos fechados, enquanto 71% dos voluntários saudáveis alcançaram a meta. A diferença foi altamente significativa e superou o desempenho de avaliações tradicionalmente utilizadas na neurologia.
O fracasso de um teste clássico
Uma das descobertas mais relevantes foi a limitação do chamado Timed 25-Foot Walk (T25FW), exame amplamente utilizado para medir a velocidade da marcha em pacientes com esclerose múltipla.
Nos indivíduos em estágio inicial da doença, o T25FW não conseguiu distinguir pacientes dos controles saudáveis. Em outras palavras, muitos participantes apresentavam velocidade de caminhada normal, apesar de já possuírem alterações neurológicas detectáveis.
Segundo os autores, isso reflete uma transformação no perfil da doença. Com o avanço das terapias altamente eficazes nas últimas duas décadas, os pacientes chegam aos consultórios com níveis menores de incapacidade, tornando as ferramentas tradicionais menos sensíveis para identificar alterações precoces.
Um “teste de estresse” para o cérebro
A equipe propõe uma explicação neurobiológica para o sucesso do teste.
Manter-se equilibrado sobre uma única perna com os olhos fechados exige a integração simultânea de múltiplos sistemas neurais: propriocepção, processamento vestibular, coordenação cerebelar e controle motor corticospinal. Quando a visão é retirada da equação, o cérebro passa a depender intensamente dessas redes internas para manter a postura.
“Propomos que o teste funcione como um verdadeiro teste de estresse neurológico”, escrevem os autores. Nessa condição desafiadora, pequenas lesões dispersas provocadas pela esclerose múltipla deixam de ser compensadas pelos mecanismos de reserva neural e passam a se manifestar como perda de equilíbrio.
O estudo mostrou que a duração do apoio unipodal apresentou correlação moderada a forte com diversos indicadores clínicos da doença, incluindo o EDSS (r = -0,63), o escore de ataxia SARA (r = -0,73), o teste de destreza manual 9-Hole Peg Test (r = -0,64) e o T25FW (r = -0,64).
Validação independente reforça resultados
Para verificar se os achados eram reproduzíveis, os pesquisadores realizaram uma validação externa em um segundo hospital universitário, envolvendo 20 pacientes e 19 controles saudáveis.

Mais uma vez, o teste confirmou sua robustez. A capacidade de discriminar pacientes com EM precoce atingiu uma área sob a curva (AUC) de 0,85, considerada excelente em estudos diagnósticos. Além disso, a correlação com o grau de incapacidade clínica permaneceu significativa.
Os autores destacam que poucos instrumentos clínicos simples conseguem alcançar esse nível de desempenho sem depender de equipamentos sofisticados.
Sem sensores, sem custos e pronto para o consultório
Embora a equipe tenha utilizado sensores inerciais avançados para medir oscilações corporais, os resultados mostraram algo inesperado: o simples tempo de permanência no apoio unipodal teve desempenho igual ou superior ao de diversas métricas digitais derivadas desses dispositivos.
Para os neurologistas, isso representa uma vantagem prática importante.
“O teste pode ser interpretado facilmente, requer equipamento mínimo e pode ser administrado rapidamente”, observam os pesquisadores.
Num cenário em que a medicina busca biomarcadores acessíveis para acompanhar a evolução da esclerose múltipla, um procedimento que exige apenas um cronômetro e alguns segundos de avaliação pode ter enorme impacto clínico.
Uma nova geração de medidas de incapacidade
A equipe também desenvolveu um escore composto que combina três avaliações: apoio unipodal, T25FW e 9-Hole Peg Test. O índice alcançou correlação ainda maior com o EDSS (r = 0,74) e excelente desempenho diagnóstico, sugerindo que a integração de diferentes domínios motores oferece uma visão mais completa da doença.
Apesar dos resultados promissores, os autores reconhecem limitações. O estudo teve desenho transversal, impossibilitando avaliar se o teste prevê progressão futura da incapacidade. Também serão necessários estudos multicêntricos maiores para definir valores de referência e confirmar a utilidade em diferentes populações.
Ainda assim, a conclusão é clara: o teste de apoio unipodal com olhos fechados emerge como uma ferramenta simples, objetiva e de baixo custo para detectar perdas sensório-motoras precoces na esclerose múltipla, justamente em uma fase em que intervenções terapêuticas podem produzir os maiores benefícios.
Referência
Akar, K., Youssef, H., Akkoç, F. et al. O teste de apoio unipodal com olhos fechados detecta declínio sensório-motor sutil na esclerose múltipla precoce. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-57507-0